Novo Acordo Ortográfico: regras, exemplos e contexto histórico

Carolina Sueto Moreira
Carolina Sueto Moreira
Professora de Português

O Acordo Ortográfico é um tratado internacional que tem o objetivo de unificar a escrita dos países falantes de português. No Brasil, ele entrou em vigor em 2009, em caráter de transição, tornando-se obrigatório em 2016.

Houve poucas mudanças em relação à grafia brasileira. As que trouxeram maior impacto ocorreram na acentuação e no uso de hífen.

Mudanças na acentuação

Ao todo, o Acordo Ortográfico fez alterações em seis regras de acentuação. São elas:

1) Retirada do acento em “oo” e “ee”

O acento circunflexo foi retirado das palavras em que ocorrem as vogais duplas “oo” e “ee”.

Exemplos de palavras com “ee” e “oo”:

  • voo
  • doo
  • abençoo
  • deem
  • creem
  • leem

2) Retirada do acento em ditongo “ei” e “oi”

O acento agudo foi abolido nas palavras paroxítonas que trazem os ditongos “ei” e “oi” na sílaba tônica.

Exemplos de palavras com ditongo “ei” e “oi” na penúltima sílaba:

  • geleia
  • assembleia
  • heroico
  • jiboia

Se o ditongo ocorrer na última sílaba e a palavra for oxítona, o acento continua.

Exemplos de palavras com ditongo “éi” e “ói” na última sílaba:

  • herói
  • corrói
  • papéis
  • coronéis

3) Retirada do acento diferencial

Como o próprio nome indica, o acento diferencial era utilizado para diferenciar palavras que pertencem a classes gramaticais diversas. Com a retirada de alguns acentos diferenciais, as palavras passam a ser escritas do mesmo modo.

Acentos diferenciais que foram retirados

Para (verbo)

Para (preposição)

Para de ser medrosa! (verbo)

Rebeca foi para casa. (preposição)

Pelo (verbo)

Pelo (substantivo)

Pelo (preposição + artigo)

Eu me pelo de medo de barata. (verbo)

O pelo do cachorro é malhado. (substantivo).

Caminhamos pelo parque. (preposição + artigo)

Pela (verbo)

Pela (preposição + artigo)

A água pela de tão quente. (verbo)

Andamos pela rua florida. (preposição + artigo)

Pera (substantivo)

Pera (preposição em desuso)

Essa pera está madura. (substantivo)

Polo (substantivo)

Polo (preposição em desuso)

Os polos da Terra são achatados. (substantivo)

Acentos diferenciais que foram mantidos

Pôr (verbo)

Por (preposição)

É importante pôr a manteiga gelada na massa. (verbo)

Passei por muitas dificuldades neste ano. (preposição)

Verbo poder

(passado e presente)

Ontem ele pôde sair. (passado)

Hoje ele não pode sair. (presente)

Verbo ter e derivados

(singular e plural)

Ele tem o livro. (singular)

Eles têm o livro. (plural)

Ele detém conhecimento. (singular)

Eles detêm conhecimento. (plural)

Verbo vir e derivados

(singular e plural)

Ele vem à festa. (singular)

Eles vêm à festa. (plural)

Ele intervém na discussão. (singular)

Eles intervêm na discussão. (plural)

Acentos diferenciais opcionais

Forma

Fôrma

A forma de bolo é redonda.

A fôrma de bolo é redonda.

Demos

Dêmos (grafia europeia)

Demos um presente para Juliano.

Dêmos um presente para Juliano.

Falamos

Falámos (grafia europeia)

Falamos com Vanessa ontem.

Falámos com Vanessa ontem.

4) Retirada do trema

O sinal gráfico trema [ ¨ ] era utilizado sobre a letra “u” quando pronunciada nas sílabas “gue”, “gui”, “que” e “qui”.

Exemplos com “gue”, “gui”, “que” e “qui” com o “u” pronunciado:

  • unguento
  • linguiça
  • frequente
  • tranquilo

Como se trata de uma mudança ortográfica, o sinal gráfico foi retirado, mas a pronúncia continua a mesma. Além disso, o trema continua a ser escrito em palavras de origem estrangeira.

Exemplos de trema em palavras estrangeiras:

  • Müller
  • mülleriano
  • Bündchen

5) Retirada do acento em “i” e “u” após ditongo

Não se acentua mais o “i” e o “u” tônicos das palavras paroxítonas, quando vêm depois de ditongo.

Exemplos de palavras com “i” e “u” tônicos após ditongo:

  • feiura
  • baiuca
  • boiuno
  • cheiinho

Se não houver ditongo na sílaba anterior, "i" e "u" continuam acentuados. O mesmo acontece se estiverem na sílaba final – seguidos ou não de "s".

Exemplos de “í” e “ú” acentuados:

  • saúde
  • saída
  • teiú
  • tuiuiús

6) Retirada do acento em “u” em formas verbais

Não se acentua mais o “u” tônico dos verbos como “averiguar”, “apaziguar”, “arguir”.

Exemplos de “u” tônico em formas verbais:

  • averigue
  • apaziguem
  • arguem

Mudanças no uso do hífen

As principais mudanças no uso do hífen ocorreram com prefixos e falsos prefixos.

Usa-se hífen com prefixos ou falsos prefixos

Usa-se hífen quando o segundo elemento inicia com “h” ou com a mesma vogal ou consoante com que termina o prefixo.

Exemplos de palavras compostas que apresentam segundo elemento com “h” ou letra igual à letra final do prefixo:

  • anti-higiênico
  • contra-ataque
  • micro-ondas
  • super-resistente
  • inter-racial

Usa-se hífen após os prefixos “ex”, “sota” ou “soto”, “vice”, “pós”, “pré” e “pró”.

Exemplos de palavras compostas com prefixo “ex”, “soto”, “vice”, “pós”, “pré” e “pró”:

  • ex-namorado
  • soto-capitão
  • vice-rei
  • pós-graduação
  • pré-pago
  • pró-reitoria

Usa-se hífen após os prefixos “circum” e “pan”, quando o segundo elemento começa com vogal, “m” ou “n”.

Exemplos de palavras compostas com os prefixos “circum” e “pan”:

  • circum-murado
  • circum-navegação
  • pan-americano

Não se usa hífen com prefixos e falsos prefixos

Não se usa hífen quando o prefixo termina por vogal e a palavra seguinte começa por “r” ou “s”. Para manter a pronúncia, as consoantes “r” e “s” são duplicadas.

Exemplos de palavras compostas por prefixo terminado em vogal e segundo elemento iniciado por “r” ou “s”:

  • minissaia
  • antirreligioso
  • microssistema

Não se usa hífen quando o prefixo termina em vogal e o segundo elemento começa com vogal diferente ou consoante.

Exemplos de palavras compostas com prefixo terminado em vogal e segundo elemento iniciado com vogal diferente ou consoante:

  • autoescola
  • aeroespacial
  • semicírculo

Não se usa hífen com os prefixos “co” e “re”, mesmo quando vêm seguidas de mesma vogal.

Exemplos de palavras compostas com os prefixos “co” e “re”:

  • coordenação
  • cooperar
  • reeducar
  • reestruturar

Nas palavras compostas, o Acordo manteve as determinações instituídas em 1945, que tinham sido colocadas em prática apenas em Portugal. São sete determinações:

1) “Bem” e “mal”

Emprega-se hífen quando a palavra é composta por “bem” ou “mal” e o segundo elemento começa com vogal ou com “h”.

Exemplos de hífen com “bem” e “mal”:

  • mal-estar
  • mal-humorado
  • bem-estar
  • bem-humorado

Em alguns casos, a palavra “bem” exige hífen também diante de consoante, para manter as características ortográficas do português.

Exemplos de hífen com “bem” seguido de consoante:

  • bem-vindo
  • bem-nascido
  • bem-mandado

2) Expressões formadas com elemento de ligação

Não se usa hífen nas expressões grafadas com elemento de ligação, como preposições e conjunções.

Exemplos de expressões formadas com elemento de ligação:

  • tomara que caia
  • pé de moleque
  • dia a dia

3) Palavras compostas por justaposição

As palavras compostas formadas por justaposição (ou seja, pela união de duas ou mais palavras, sem perda de elementos de nenhuma delas) são escritas com hífen, se não houver elemento de ligação.

Exemplos de palavras compostas por justaposição:

  • cirurgião-dentista
  • tia-avó
  • conta-gotas
  • guarda-roupa

As palavras em que se perdeu a noção de composição – isto é, aquelas em que é impossível perceber quais são os elementos formadores – são escritas sem hífen. O Acordo, no entanto, não é claro ao definir o que seria “perda da noção da composição”.

Exemplos de palavras em que se perdeu a noção de composição:

  • girassol
  • pontapé
  • madressilva
  • paraquedas

4) Nomes de plantas e animais

O nome comum de espécies botânicas e zoológicas é escrito com hífen.

Exemplos de nomes de espécies botânicas e zoológicas:

  • couve-flor
  • erva-doce
  • panda-vermelho
  • equidna-de-focinho-curto

5) Encadeamentos vocabulares

Utiliza-se hífen para marcar encadeamentos vocabulares, ou seja, associação entre duas ou mais palavras que estabelecem relação entre si.

Exemplos de encadeamentos vocabulares:

  • Rio-Niterói
  • Alsácia-Lorena
  • Paris-Berlim-Roma

6) “Aquém”, “além”, “recém”, “sem”

Utiliza-se hífen em palavras compostas pelos elementos “aquém”, “além”, “recém”, “sem”.

Exemplos de palavras com “aquém”, “além”, “recém” e “sem”:

  • aquém-fronteiras
  • além-mar
  • recém-formado
  • sem-terra

7) Nomes de lugares

Os nomes de lugares formados por “Grã” ou “Grão”, por verbos ou por expressões que apresentem artigo são escritos com hífen.

Exemplos de nomes de lugares que levam hífen:

  • Grã-Bretanha
  • Abre-Campo
  • Trás-os-Montes

Os outros nomes compostos de locais continuam escritos sem hífen.

Exemplos de nomes de lugares que não levam hífen:

  • Belo Horizonte
  • Cabo Verde
  • América do Sul

Outras mudanças propostas pelo Acordo Ortográfico:

Mudanças no alfabeto

Foram reinseridas as letras K, W e Y, retiradas no Formulário Ortográfico de 1943. Dessa forma, o alfabeto volta a ter 26 letras, dispostas segundo convenção internacional:

A, B, C, D, E, F, G, H, I, J, K, L, M, N, O, P, Q, R, S, T, U, V, W, X, Y, Z

Mudanças no uso de maiúsculas

O uso de letras maiúsculas foi simplificado. Elas ficam restritas a

nomes próprios de:

  • pessoas:
    • José
    • Mariana
    • Pedro Henrique
  • locais:
    • Maceió
    • São Paulo
    • Itália
  • instituições:
    • Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
    • Ministério da Saúde
  • seres mitológicos:
    • Zeus
    • Saci
    • Tupã

nome de festas religiosas:

  • Natal
  • Ramadão
  • Pessach
  • Aiê

siglas:

  • IBGE
  • ONU
  • EMBRAPA

iniciais de abreviaturas:

  • Sr.
  • V.Ex.ª
  • D.

pontos cardeais quando se referem a regiões:

  • o Nordeste brasileiro
  • a região Sul

Contexto histórico do Acordo Ortográfico

Houve várias tentativas de unificar a grafia de Brasil e Portugal – a maioria delas proposta pelo país europeu. Foram elas:

  • Formulário Ortográfico de 1911;
  • Acordo de 1931, que deu origem ao Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, de 1940, em Portugal, e ao Pequeno Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, de 1943, no Brasil;
  • Acordo de 1945, colocado em prática apenas em Portugal (o Brasil continuou seguindo as regras de 1943).

Em 1984, a Academia Brasileira de Letras e a Academia das Ciências de Lisboa recomeçaram as negociações para a redação de um novo Acordo. Pela primeira vez, participaram das reuniões representantes de outros países lusófonos (falantes de português).

O Acordo foi assinado em 16 de dezembro de 1990 por sete representantes da Comunidade de Países de Língua Portuguesa: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe. Em 2004, depois de reconquistar a independência, o Timor-Leste também o assinou.

O documento original previa que o Acordo começasse a valer em 1º de janeiro de 1994, depois da validação de todos os países assinantes. Como apenas Brasil, Cabo Verde e Portugal fizeram a validação, o prazo foi prorrogado. Até 2020, o Acordo ainda não vigorava em Angola, Moçambique e São Tomé e Príncipe.

Carolina Sueto Moreira
Carolina Sueto Moreira
Professora, revisora e estudante de tradução. Licenciada pela UFMG. Trabalha com produção de conteúdos desde 2016.

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